Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) participaram de um estudo internacional que investigou como as atividades econômicas e as transformações ambientais afetam a ocorrência de doenças na Amazônia. O trabalho, publicado na revista Nature Communications Earth & Environment, analisou dados de todos os municípios da Amazônia Legal e identificou padrões distintos de doenças transmitidas por vetores, como malária, dengue, leishmaniose e doença de Chagas, associados a diferentes formas de uso da terra e fatores socioeconômicos.
A pesquisa envolveu a docente Camila de Moura Vogt, do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Organizações Públicas (PPGOP) da UFSM, e foi desenvolvida no âmbito do Projeto SInBIOse Trajetórias, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A colaboração, construída ao longo de mais de uma década, reúne especialistas de áreas como economia, epidemiologia, ecologia, saúde pública e sensoriamento remoto, com o objetivo de compreender a saúde de forma integrada.
De acordo com a pesquisadora, a abordagem parte do conceito de One Health (Saúde Única), que relaciona a saúde humana às condições ambientais e sociais. “A questão da saúde não está relacionada apenas à doença. Ela depende também do contexto econômico, do uso do solo, do desmatamento, da estrutura de saúde e da forma como as pessoas vivem”, explicou Camila.
Os resultados mostraram que áreas com menor desmatamento e maior presença de agricultura familiar e sistemas agroflorestais apresentaram maior ocorrência de malária e doença de Chagas. Já regiões mais urbanizadas ou marcadas pela pecuária e pelo desmatamento concentraram casos de dengue e alguns tipos de leishmaniose. A pesquisa também encontrou associações entre diferentes formas de pobreza urbana e rural e a incidência das doenças.
Camila contribuiu com análises sobre pobreza multidimensional, destacando que indicadores baseados apenas na renda não representam a realidade das populações amazônicas. “Quando analisamos essas regiões, olhar apenas para a renda não é suficiente. Existem diferenças importantes no acesso à saúde, aos serviços públicos e à infraestrutura”, afirmou.
Embora o estudo identifique correlações, os resultados podem auxiliar no planejamento de políticas públicas de saúde e no fortalecimento da vigilância epidemiológica. “Quando muda o padrão das doenças, muitas vezes também está mudando o ambiente. Entender essas dinâmicas permite direcionar melhor as políticas públicas e planejar ações de acordo com a realidade de cada território”, destacou a pesquisadora.
O grupo de pesquisa segue atualizando as bases de dados e desenvolvendo novos estudos na Amazônia. Para Camila, a principal contribuição é reforçar que saúde, meio ambiente e desenvolvimento econômico são temas inseparáveis. “Tudo está interconectado. O meio ambiente interfere na forma como a saúde responde, e isso também está relacionado à pobreza, ao planejamento urbano e ao uso da terra”, concluiu.